Entendendo os riscos de procedimentos estéticos realizados por um dentista não qualificado

A busca por uma aparência mais jovem e harmônica levou muitos brasileiros a se aventurarem em procedimentos estéticos. No entanto, o que deveria ser um caminho para a autoestima elevada pode se transformar em um verdadeiro pesadelo quando os procedimentos são realizados por profissionais sem a qualificação adequada. A falta de preparo técnico e conhecimento científico por parte de alguns praticantes tem gerado um aumento preocupante de incidentes e complicações graves, colocando em risco a saúde e o bem-estar dos pacientes.

É fundamental entender que procedimentos estéticos, especialmente os faciais, exigem não apenas habilidade manual, mas também um profundo conhecimento da anatomia, fisiologia e das possíveis reações do corpo. A atuação de profissionais não qualificados, motivados muitas vezes pela alta demanda do mercado, pode resultar em resultados desastrosos, como deformações severas, infecções e até consequências irreversíveis. Este artigo visa desmistificar os perigos envolvidos e orientar sobre a importância de escolher um profissional habilitado e experiente.

A realidade dos procedimentos estéticos e a falta de qualificação

O cenário atual demonstra um crescimento exponencial na procura por procedimentos estéticos no Brasil. Segundo o Conselho Federal de Odontologia (CFO), houve um aumento de 50% no número de cirurgiões-dentistas especialistas em harmonização facial em apenas 12 meses, saltando de 2.675 em dezembro de 2023 para 4.012 em 2024. Essa expansão, embora positiva em termos de acesso, também abre margens para a atuação de profissionais despreparados.

Especialistas da área apontam que a proliferação de cursos de curta duração e de baixa qualidade em estética, aliada à alta demanda por esses serviços, tem levado à formação de profissionais sem a devida base teórica e prática. A dentista especialista em Ortodontia, Renata Salum, alerta que muitos cursos disponíveis no mercado carecem de qualidade e credenciamento adequados, oferecendo formações sem a infraestrutura necessária ou sem uma base prática sólida. Isso pode deixar o profissional despreparado para lidar com situações complexas que surgem durante os procedimentos, como explica Salum.

A falta de qualificação adequada não se limita a um resultado estético insatisfatório; ela pode desencadear uma série de complicações sérias. Um exemplo chocante é o da influenciadora e modelo Mariana Michelini, que aos 33 anos sofreu uma deformação severa nos lábios após um procedimento de harmonização facial realizado por um profissional sem qualificação. O caso, ocorrido em 2020, resultou na perda de parte do lábio superior, dores intensas, inchaço prolongado e um profundo impacto em sua autoestima e carreira, conforme relatado na CNN Brasil.

Riscos iminentes de procedimentos mal executados

A realização de procedimentos estéticos por profissionais sem a devida qualificação expõe os pacientes a diversos riscos, que podem variar de complicações leves a quadros graves e irreversíveis. A falta de conhecimento sobre a anatomia facial detalhada, os tipos de produtos utilizados, as técnicas corretas de aplicação e os cuidados pós-procedimento são os principais fatores que levam aos incidentes.

Entre os riscos mais comuns estão:

  • Infecções: A falta de assepsia rigorosa durante o procedimento ou o uso de materiais não esterilizados podem levar a infecções bacterianas ou fúngicas, que podem se agravar e exigir tratamentos complexos.
  • Reações alérgicas: O uso de produtos de procedência duvidosa ou incompatíveis com o organismo do paciente pode desencadear reações alérgicas graves, desde vermelhidão e inchaço até anafilaxia.
  • Necrose tecidual: A aplicação incorreta de substâncias, como preenchedores, pode obstruir vasos sanguíneos, levando à falta de oxigenação dos tecidos e, consequentemente, à necrose (morte celular).
  • Danos a nervos: Procedimentos mal executados podem atingir nervos importantes da face, resultando em dormência, paralisia temporária ou permanente de músculos faciais, assimetrias e alterações na expressão.
  • Migração de produtos: Substâncias injetáveis podem migrar para outras áreas do rosto, causando deformidades indesejadas e dificultando a correção.
  • Resultados estéticos insatisfatórios: Além das complicações de saúde, a falta de técnica apurada pode levar a resultados estéticos desproporcionais, assimétricos ou que não atendem às expectativas do paciente, gerando frustração e a necessidade de procedimentos corretivos.
  • Complicações sistêmicas: Em casos extremos, o uso inadequado de substâncias ou a ocorrência de infecções severas podem levar a complicações que afetam todo o organismo.

O caso de Mariana Michelini ilustra dramaticamente o risco de deformações severas. A reconstrução de seu lábio superior, que envolveu processos complexos como costurar a boca por 20 dias e utilizar a língua para auxiliar na cicatrização, demandou cerca de um ano e meio de tratamento, demonstrando a longa e dolorosa jornada de recuperação a que pacientes em situação semelhante podem ser submetidos.

A importância da qualificação e especialização profissional

Diante desse cenário, a busca por profissionais qualificados e habilitados torna-se um ato de autocuidado e responsabilidade. Entidades setoriais, como a Associação Brasileira de Ortodontia e Ortopedia Facial (ABOR), reforçam a orientação para que os pacientes busquem referências confiáveis e profissionais que sigam a melhor evidência científica, priorizando a ética e a saúde.

Um profissional qualificado para procedimentos estéticos, especialmente na área facial, deve possuir formação sólida e, idealmente, especialização em áreas como harmonização facial, dermatologia ou cirurgia plástica. No campo da odontologia, por exemplo, a especialização em harmonização orofacial (HOF) garante que o dentista possua o conhecimento aprofundado da anatomia da cabeça e pescoço, bem como das técnicas e produtos mais seguros para a região.

A presidente da ABOR, Carla Derech, enfatiza a importância de procurar por bons especialistas e instituições que visem proteger a população. Essa busca por referências e a verificação da qualificação profissional são passos essenciais para garantir a segurança e a satisfação com os procedimentos estéticos.

O papel da Anvisa na proteção ao consumidor

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desempenha um papel crucial na tentativa de reduzir o número de procedimentos malsucedidos e proteger os consumidores. A agência disponibiliza em seu portal informações sobre produtos aprovados e proibidos pela Anvisa, além de orientações sobre como relatar problemas ou denunciar irregularidades.

A Anvisa também emitiu uma nota técnica para orientar clínicas sobre normas sanitárias, classificando os estabelecimentos em duas categorias: serviços de saúde, que exigem procedimentos realizados por profissionais da área médica ou sob sua supervisão; e serviços de interesse para a saúde, que não demandam formação específica na área da saúde para suas atividades. É importante ressaltar que a profissão de esteticista não é reconhecida como uma categoria da área da saúde, devendo seguir normas específicas de segurança, higiene e descarte de resíduos. Além disso, o uso de medicamentos em clínicas estéticas sem supervisão médica é proibido.

Como escolher um profissional qualificado

Para evitar os riscos associados a procedimentos estéticos mal executados, é fundamental seguir alguns passos na escolha do profissional:

  1. Verifique a formação e especialização: Confirme se o profissional possui graduação completa na área da saúde (medicina, odontologia, etc.) e se possui especialização ou certificações reconhecidas na área de procedimentos estéticos que você deseja realizar.
  2. Pesquise a reputação: Busque por avaliações online, depoimentos de outros pacientes e informações sobre a experiência do profissional. Converse com amigos ou conhecidos que já tenham passado por procedimentos similares.
  3. Consulte conselhos de classe: Verifique se o profissional está devidamente registrado e ativo nos conselhos de sua categoria (ex: Conselho Regional de Medicina – CRM, Conselho Regional de Odontologia – CRO).
  4. Avalie a clínica e a estrutura: Visite o local onde o procedimento será realizado. Certifique-se de que a clínica possui infraestrutura adequada, equipamentos modernos e um ambiente seguro e higienizado.
  5. Desconfie de preços muito baixos: Procedimentos estéticos de qualidade envolvem custos com materiais, equipamentos e a expertise do profissional. Preços excessivamente baixos podem indicar o uso de produtos de baixa qualidade ou a falta de cuidado.
  6. Tire todas as suas dúvidas: Durante a consulta inicial, não hesite em perguntar sobre os produtos a serem utilizados, as técnicas, os riscos envolvidos, os cuidados pré e pós-procedimento e quais os resultados esperados. Um profissional qualificado saberá responder a todas as suas perguntas de forma clara e transparente.

A influenciadora Mariana Michelini, após sua dolorosa experiência, alerta: “Não desencorajo ninguém a fazer procedimentos estéticos, mas recomendo que pesquisem bem antes de escolher um profissional qualificado”. Sua jornada de reconstrução facial, iniciada apenas quatro anos após o procedimento que a deixou com deformações, ressalta a importância da paciência, da persistência e, acima de tudo, da escolha correta do profissional.

Em suma, a busca por procedimentos estéticos deve ser pautada pela segurança e pela saúde. Ao priorizar profissionais qualificados, com formação sólida e ética profissional, os pacientes minimizam os riscos e aumentam significativamente as chances de alcançar os resultados desejados de forma segura e satisfatória, preservando a autoestima e o bem-estar.

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